Thursday, 29 March 2012

Acidente de poesia


Eu sou um nao-poeta. 
Atrapalhado das letras, amontoador de palavras. 
Nao rimo sufixos, nao justifico meus textos.
Os espacos - todos eles muito simples - cerceam o trajeto do pensamento
Nao acentuo as palavras
Conto com a familiaridade do leitor para dar a elas a entonacao apropriada
(bem se sabe que um bom poeta nao pode contar com a familiaridade do leitor...). 
E se ao final do texto a escrita desgrenhada agrada, 
tem-se assim o acidente: virou poesia.
...quando me recolho, o que sinto, porém, é o gosto tácito da minha própria amargura. 

O homem tremia. Mordia a pele do lábio inferior, de braços cruzados. Os olhos desviavam ligeiros pra esconder sua fragilidade. Apaixonou-se por sua fragilidade. Dele, e a de todos os homens do mundo.
Pra onde vai essa imensidão, quando não há mais corpo?

Saturday, 31 December 2011

Frankensteins

Estou munida agora de um sentimento de felicidade serena. Porque entendo, pela centesima vez, mas de modo novo, o que eu estou fazendo aqui. Falo da minha tentativa de produzir materia tateavel, de coisificar meu entendimento do mundo, atraves da escrita: esse paradoxo de liberdade. Porque criar eh dar vazao, fazer existir, mas existir de modo manco. De um modo que ainda nao eh e nem nunca vai ser. 
A coisa criada nos enreda em sua forma, na sua existencia incompleta, reveladora despudorada das nossas limitacoes. A palavra eh entao um meio, um instrumento que carrega a consciencia dessa limitacao, ao mesmo tempo em que deflagra a premencia de continuidade. Seu carater transmutavel, nao-definitivo, eh um convite ao proximo texto. O que revela a beleza da inocencia de tentar. Uma inocencia que nao eh estupida, mas lucida, forte. Vontade de criacao, onde habita o que se chama de esperanca, de fe, ou quem sabe, de Deus.
A criatura eh a materializacao dessa esperanca, a reiteracao de que vale a pena continuar buscando.